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*Aloísio Parreiras
*Historiador e integrante do
Movimento de Emaús
*Fonte:
MAB.ORG.BR
História da Festa de
Corpus Christi
No decorrer de sua história, a nossa Mãe Igreja enfrentou inúmeras
heresias. Temos conhecimento de que as primeiras grandes
controvérsias teológicas que precisaram ser resolvidas em meio aos
concílios ecumênicos versaram sobre a Santíssima Trindade, no
primeiro e no segundo Concílios Ecumênicos; sobre o mistério da
Encarnação, no terceiro, quarto, quinto e sexto Concílios
Ecumênicos; e o problema das imagens, no sétimo Concílio
Ecumênico.
Por mais de dez séculos, não ocorreram heresias em relação ao
sacramento da Eucaristia. Mas, no início do 2º milênio, essas
heresias começaram a surgir. Nesse contexto, as declarações do
Magistério da Igreja em relação à Eucaristia começaram a aparecer
no 2º milênio, primeiro, durante a Idade Média, em relação à
presença real de Cristo na Eucaristia, e, depois, no final da
Renascença, durante a Contra-Reforma, sobre a natureza sacrificial
da Santa Missa. Em meio a todo esse contexto, a Igreja definiu a
Solenidade de Corpus Christi.
No século XI, surgiu a heresia de Berengário de Tours que negava a
presença de Cristo na Eucaristia. Berengário “foi quem primeiro se
atreveu a negar a conversão eucarística; a Igreja condenou-o
porque nunca quis se retratar. Gregório VII obrigou-o a prestar um
juramento nestes termos: ‘Creio de coração e confesso de palavra
que o pão e o vinho, colocados sobre o altar, se convertem
substancialmente, pelo mistério da oração sagrada e das palavras
do nosso Redentor, na verdadeira, própria e vivificante Carne e no
Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois de consagrados,
são o verdadeiro Corpo de Cristo, que, nascido da Virgem e
oferecido pela salvação do mundo, esteve suspenso na Cruz e agora
está sentado à direita do Pai; como também o verdadeiro Sangue de
Cristo, que saiu do seu peito. Não está Cristo somente em figura
em virtude do Sacramento, mas na sua natureza própria e na sua
verdadeira substância”. (Mysterium Fidei, 54). Poucos anos depois,
a Igreja enfrentou ainda a heresia dos Valdenses e, em função de
tudo isso, em 1215, o Concílio Ecumênico de Latrão utilizava pela
primeira vez a palavra “transubstanciação”, afirmando: “O Corpo e
o Sangue de Cristo no Sacramento do Altar estão verdadeiramente
contidos sob as espécies do pão e do vinho, transubstanciados o
pão, no Corpo, e o vinho, no Sangue, pelo poder divino”.
Diante desse panorama de surgimento de heresias que contestavam a
Sua presença na Eucaristia, Jesus Cristo se revelou a uma freira
de nome Juliana de Mont Cornillon, manifestando-lhe a necessidade
de se incluir, nas solenidades do culto oficial da Igreja, uma
comemoração especial em honra ao Santíssimo Sacramento. Surgia
assim, a Festa de Corpus Christi, que foi celebrada pela primeira
vez em Liége, na Bélgica. Corpus Christi, desde o início, é uma
festa popular, revestida de inúmeras manifestações de fé, que é
refletida nos solenes hinos. “Essa festa, estendida pelo papa
Urbano IV, em 1264, a toda a Igreja Latina, constitui, por um
lado, uma resposta de fé e de culto às doutrinas heréticas(...) e,
por outro lado, foi a coroação de um movimento de grande devoção
ao augusto sacramento do altar”. (Diretório, 160).
Juntamente com Corpus Christi, “nasceram igualmente muitas outras
instituições de piedade eucarística, que, por inspiração da graça
divina, foram sempre em progresso. Com elas se empenha a Igreja
Católica, quase à porfia, não sabemos se mais em honrar a Cristo,
em lhe dar graças por dádiva tão extraordinária, ou em implorar a
sua misericórdia”. (Mysterium Fidei, 65). Hoje, do mesmo modo que
há oito séculos, o povo em procissão anuncia publicamente que o
sacrifício de Cristo é para a salvação do mundo inteiro. Em
procissão, cantamos e rezamos, proclamando junto com Santo Irineu
de Leão que “a Presença Eucarística é a síntese de toda a história
da Salvação”. Ou ainda: “Deus se fez temporal a fim de que nós
homens, seres fugazes, nos tornássemos eternos”. Corpus Christi é
de fato um testemunho de piedade eucarística. Corpus Christi é a
realização da promessa de Cristo: “Onde estiverem dois ou três
reunidos em meu nome, aí Eu estarei presente no meio deles”. (Mt
18,20). Em procissão, demonstramos a alegria de pertencer ao Corpo
Místico de Cristo. Somos um só corpo, com Ele.
Verdadeiramente, a Eucaristia é a suprema oração dos cristãos, a
oração das orações e, por isso, “com humilde ufania acompanharemos
o Sacramento eucarístico ao longo das ruas da cidade, ao lado dos
edifícios, onde o povo vive, se alegra, sofre; no meio dos
negócios e escritórios nos quais se desenvolve a atividade
cotidiana. Levá-lo-emos ao contato com a nossa vida insidiada por
mil perigos, oprimida por preocupações e sofrimentos, submetido ao
lento mas inexorável desgaste do tempo”. (Homilia do Papa João
Paulo II na Mensagem de Corpus Christi em junho de 2000). Nesse
ato público de fé, anunciamos que temos necessidade de participar
da Eucaristia para sermos bons trabalhadores, bons estudantes e,
principalmente, bons adoradores do único e verdadeiro Deus. Cristo
eucarístico nos leva a adquirir a consciência de que “nenhuma
comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na
celebração eucarística”. (Ecclesia de Eucharistia, 33)
Corpus Christi é uma demonstração visível da fé que professa que a
Eucaristia “é o tesouro da Igreja, o coração do mundo, o penhor da
meta pela qual, mesmo inconscientemente, suspira todo o homem”. (Ecclesia
de Eucharistia, 59). Em sua penúltima Carta apostólica, o Papa
João Paulo II nos diz: “Neste ano, seja vivida com particular
fervor a solenidade do Corpus Domini com a tradicional procissão.
A fé neste Deus que, tendo encarnado, Se fez nosso companheiro de
viagem, seja proclamada por toda a parte particularmente pelas
nossas estradas e no meio das nossas casas, como expressão do
nosso amor agradecido e fonte inexaurível de bênção”. (Mane
Nobiscum Domine, 18). Atendendo ao apelo de João Paulo II, vamos
alegremente entoar: “Ao Eterno Pai cantemos e a Jesus, o Salvador.
Ao Espírito exaltemos, na Trindade, eterno amor. Ao Deus Uno e
Trino demos a alegria do louvor”.
Participar de Corpus Christi é demonstrar que a fé é individual:
eu creio. Mas, participar de Corpus Christi é demonstrar também
que a fé é comunitária: nós cremos. Cremos que, na Eucaristia,
Jesus Cristo se faz presente com Seu Corpo, Seu Sangue, Sua Alma e
Sua Divindade. Como é bom poder bradar que “a Eucaristia torna
constantemente presente Cristo ressuscitado, que continua a
oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo
e do seu Sangue. Da comunhão plena com Ele, brotam todos os outros
elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar, a comunhão entre
todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemunho do
Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para
com os pobres e os pequeninos". (1ª Mensagem de sua Santidade
Bento XVI no final da concelebração eucarística com os cardeais
eleitores na Capela Sistina em 20 de abril de 2005).
Testemunhando as maravilhas que Deus opera em nós, por meio da
Eucaristia, vamos juntos, com entusiasmo e uma enorme satisfação,
proclamar que a “Igreja vive da Eucaristia, vive da plenitude
desse sacramento”. (Redemptor Hominis, 20). E, não só em Corpus
Christi, mas em todos os dias, peçamos com ardor ao Cristo:
“Fica conosco, Senhor!” (Lc 24,29).

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